“Sin City – A Cidade do Pecado” exibe um Frank Miller sem amarras no seu auge artístico

Sin City é um dos maiores sucessos dos quadrinhos, certamente um dos quadrinhos mais vendidos pela Dark Horse, sua editora nos EUA. Depois de ser publicada no Brasil pela Globo e Pandora Books, a Devir relançou o álbum em 2004. Desde então, o encadernado passou por diversas reimpressões, em grande parte devido ao sucesso da adaptação cinematográfica lançada em 2005.

A Cidade do Pecado (The Hard Goodbye), a primeira história da série Sin City, começou a ser publicada a partir de 1991 na revista Dark Horse Presents. Na época, Frank Miller estava em seu auge artísitico e logo na sua primeira investida dentro da série, ele conseguiu lançou as bases para toda a inventividade pela qual a série ficou marcado com o tempo. Na época, Miller já era um nome de peso na indústria. O sucesso angariado com sua passagem pela revista do Demolidor, além das graphic novels O Cavaleiro das Trevas e Batman – Ano Um, proporcionaram ao autor a oportunidade de produzir um material de pegada mais autoral e adulta. Seu prestígio estava nas alturas e a Dark Horse se mostrava a casa ideal para lançar seus novos projetos.

Isso porque parece improvável que algumas das grandes editoras americanas, Marvel ou DC, se dispusessem a publicar Sin City, mesmo sob os seus respectivos selos de séries adultas. Tudo na série transmite uma sensação de perversão, violência, volúpia, enfim, pecado. O preto que Miller pinta quase com agressividade mostra uma cidade misteriosa, traiçoeira, onde o perigo parece espreitar a cada quadro: “Entre no beco certo em Sin City e você pode encontrar qualquer coisa…

A Cidade do Pecado conta a saga de vingança de Marv. Logo após a primeira noite com aquela mulher que  lhe fez sentir como nenhuma outra ousou em tentar, ela aparece morta ao seu lado. Goldie era seu nome, e sua morte foi fruto de um silencioso assassino que deu cabo em sua vida enquanto dormiam juntos. Marv não faz a mínima ideia do que causou o assassinato dela, apenas uma coisa ficou bem clara em sua cabeça após o ocorrido: os responsáveis iriam padecer dolorosamente em suas mãos. A partir de então ele se põe a vasculhar o submundo atrás de pistas, apenas com a ajuda inicial de Gladys, sua arma.

Miller é visceral em descrever a trajetória de sangue e violência que Marv deixa pelo caminho. Não se trata somente daquela improvável saga do brutamontes que busca vingança, Marv é um sujeito bastante consciente de suas limitações e, por isso, sabe muito bem o quanto essa busca irá lhe custar. Mas ele pouco importa, pois está disposto a morrer pela mulher que, ainda que por apenas uma noite, o fez feliz. E, de fato, esse custo chega, e de forma tão intensa quanto foi sua investida.

Está clara a preocupação em não fazer de Marv um herói. Todos na história são pessoas tortas, infames e sem escrúpulos. Quando mais Miller desce a fundo nos meandros de Sin City (que, na verdade, se chama de Basin City), mais irreversível aparenta ser a terrível situação moral em que o lugar está mergulhado. Tudo isso, inclusive, é reconhecido pelo próprio Marv nos seus diversos monólogos durante a trama

Não é somente o roteiro de Miller que impressiona, em que demonstra todo o seu talento em empolgar o leitor, mas sua arte também se faz digna de nota. É curioso como os seus desenhos parecem ser tão simples e minimalistas ao mesmo tempo em que são tão intensos e cheios de significado. Miller faz miséria com seu preto borrado.

A nova edição lançada pela Devir no ano passado vem com uma nova tradução, além de extras inéditos, como capas e materiais publicitários desenhados pelo próprio Frank Miller. Contudo, nada que justifique uma nova compra para quem já tiver uma das edições anteriores.

Resenha originalmente publicada no finado blog Dimensão Nona Arte em 5 de março de 2013.

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