
Por muitos anos, parecia que o Brasil tinha um certo bloqueio para concluir algumas séries de quadrinhos. Títulos consagrados como Hellblazer, 100 Balas e Os Invisíveis viram algumas tentativas de publicação fracassarem muito antes da publicação da sua última edição. Com o advento do selo Vertigo na Panini no meio dos anos 2010, essa maldição pareceu que tinha chegado ao fim. As três séries mencionadas, além de terem sido concluídas na sua versão padrão em capa cartão, foram republicadas posteriormente em formato capa dura de luxo. Realmente são outros tempos no mercado editorial brasileiro.
Porém, ainda há uma série que parece que ainda é imune ao sucesso no Brasil: Sandman: Teatro do Mistério. Ao contrário do outro Sandman da Vertigo, ele não goza do mesmo sucesso editorial, ao contrário, foram duas tentativas frustradas de publicação regular da série por aqui: uma em 2014 com o lançamento do primeiro volume e outra, anos depois, com uma reimpressão.
Agora, mais de uma década depois, a Panini investe novamente na série, dessa vez sob uma nova roupagem. Ao invés de um encadernar apenas quadro edições avulsas como feito anteriormente, a editora optou por juntar dois arcos em um mesmo volume (oito edições) e incrementar o acabamento do livro, deixando-o mais parecido com as edições de luxo que a editora se especializou em lançar nos últimos anos, especialmente com as séries da Vertigo.
Para quem gosta de histórias policiais, ler Sandman Teatro do Mistério foi um prato cheio. Não se engane pelo nome que logicamente remete ao clássico de Neil Gaiman, muito embora o sucesso desse último tenha ajudado a alavancar o projeto. Para quem não conhece o personagem, o Sandman do Teatro do Mistério pouco tem a ver com o personagem criado por Neil Gaiman. Ambos são inspirados num personagem da Era de Ouro dos quadrinhos criados por Gardner Fox e Bert Christman, então integrante da Sociedade da Justiça e que combatia o crime usando uma pistola de gás que colocava seus inimigos pra dormir. Enquanto Gaiman criou sua obra calcada no elemento fantástico, distanciando-se do original, Matt Wagner (Grendel) se manteve mais fiel às origens e recriou o clássico personagem.
Sandman é Wesley Dodds, um magnata recluso que dedica seu tempo para “ver a torpeza justiçada e o sono dos inocentes assegurado“. O cenário é a Nova York nos anos 30, que ainda sente os efeitos da Grande Depressão. A criminalidade está nas alturas bem como a dominação dos gangsteres sobre a cidade. A sua figura ostenta uma aura que, por si só, é bastante enigmática: sobretudo, máscara de gás e chapéu dão ao personagem um visão espectral, que lembra vagamente àquela armadura do Sandman de Gaiman.
Na primeira história da série, Tarântula, que a Panini compilou no encadernado lançado recentemente, já temos um ótimo arco. A história, embora seja boa e tenha servido bem ao propósito de apresentar os principais personagens, não apresenta nada de extraordinário. O que mais chama atenção é a ambientação e a caracterização dos personagens. Wagner e Davis souberam, como poucos, manter o domínio da narrativa sem descuidar do visual, de forma que nem os mais notáveis quadrinhos pulp conseguiam fazer. Nesse quesito, Teatro do Mistério não fica devendo em nada do Spirit de Will Eisner.
Claro que isso muito se deve também ao extraordinário trabalho de Guy Davis (Hellboy), com seu traço aparentemente vacilante e descuidado, mas que proporciona uma objetividade e obscuridade incomum e mais do que pertinente para uma história policial. Tamanho o seu sucesso de seu trabalho nesse primeiro arco que o artista foi convidado a continuar nos desenhos, abandonando a ideia inicial de cada arco ser desenhado por um artista diferente.
Além do mais, o roteiro seguia um padrão mais enxuto e autocontido, bastante diferente das séries regulares em geral. Todos os arcos, à moda das peças teatrais (daí a razão do “teatro” do título), se encerram em quatro partes, com à exceção do último, “The Hero”, que fechou a série e só teve duas partes. Assim, a série se desenvolveu até fevereiro de 1999 quando a edição 70 deu fim ao título. Título que foi umas das primeiras séries regulares genuinamente concebidas dentro do selo Vertigo, e não importada do selo DC como se deu, por exemplo, com Sandman e Hellblazer.










