
Um setor que tem sido à prova de crises no mercado editorial de quadrinhos no Brasil é o dos mangás. Todas as editoras querem explorar esse filão, que atinge um público amplo e diversificado, especialmente se comparado aos dos comics americanos. Apesar dessa avalanche de publicações, que vão dos clássicos aos lançamentos mais recentes, ainda existe uma obra que inexplicavelmente segue sem uma casa no Brasil: Tokyo These Days, de Taiyo Matsumoto. O mangá foi serializado no Japão entre 2019 e 2023 pela Shogakukan em um tranquilo ritmo de capítulos bimestrais. Nos EUA, a obra foi compilada em três encadernados pela Viz Media, tendo o último volume publicado no final de 2024. Ou seja, houve tempo suficiente para ela desembarcar por aqui.
A série é protagonizada por Shiozawa, um gentil editor de mangá que anunciou a sua aposentadoria após a revista da qual ele era encarregado obter baixas vendas. Aliviado e empolgado por se ver livre de uma indústria sufocante, Shiozawa dedicou seus primeiros momentos de aposentadoria tentando se desapegar de tudo relacionado a mangá em sua vida. Sua coleção de mangás seria uma das suas primeiras vítimas do seu desapego, se não fosse um abrupto desejo de editar uma última revista, dessa vez longe das amarras do controle corporativo, onde os artistas pudessem ter plena liberdade para expressar suas ideias.
Esse se torna o mote principal do mangá, que passa a acompanhar o editor em seus encontros com uma grande variedade de artistas de mangá na tarefa de convencê-los a trabalhar com ele em sua nova empreitada. É aqui que as coisas começam a ficar interessantes. Assim como Shiozawa, todos os profissionais da indústria com quem ele se encontrou (alguns também já aposentados) tinham a sua própria cota de dúvidas, sofrimentos e rancor com a indústria. Nenhum deles enriqueceu com o trabalho. Um deles, inclusive, perdeu completamente a paixão pelos quadrinhos, abandonou a família e vive em intensa solidão.
Essa visão pessimista, contudo, não contamina o tom da obra como um todo. Ela tampouco é aprofundada a ponto de macular a abordagem positiva que Matsumoto empregou. Para alguns personagens, tais dificuldades praticamente fazem parte do seu próprio processo criativo.
O autor traça uma linha bem nítida entre a indústria do mangá, com todos os seus defeitos e vícios que impedem os artistas de prosperarem, e a arte em si, que inspira, transforma e move as pessoas adiante apesar das adversidades.
Embora o mangá seja o centro temático da interação entre os personagens, a lupa de Matsumoto está sobre as pessoas: o medo do fracasso, a esperança do sucesso, a angústia pelos prazos, o bloqueio artístico, a alegria do reencontro de um antigo colega… Ao focar no ordinário, Matsumoto descreve o extraordinário das relações interpessoais, bem como da relação do artista com a arte. Se você já leu Ping Pong, sabe do que eu estou falando.
Outro personagem bastante eloquente é a própria Tóquio. A cidade não está no título do mangá por acaso. Matsumoto nunca negligencia o cenário em volta dos seus personagens, o que os torna não apenas mais críveis como também mais empáticos.
Cada capítulo é encerrado com uma splash page de alguma paisagem de Tóquio, reduzindo o personagem a um pequeno ponto na página. Talvez seja a forma de Matsumoto mostrar que ninguém é uma ilha, e que existe beleza em todos os lugares, por mais banal que ele seja. Jiro Tanigushi já fez algo parecido em O Homem que Passeia.
Apesar dessas splash pages servirem como um ponto final de cada capítulo, eu a encarei mais como uma exclamação, como se fosse a coda de uma sinfonia. Imagino que alguns também as vejam mais como uma elipse, pois deixam a cargo do leitor continuar a cena em sua imaginação.
Mas seja lá o que sua imaginação te responder, fato é que o que Matsumoto nos entrega em Tokyo These Days em muito pouco se assemelha a arte tradicional que vemos na maioria dos mangás.
Taiyo Matsumoto é gigante. Colossal. Se Ping Pong, Sunny e Tekkon Kinkreet não foram suficientes para convencê-los disso, talvez Tokyo These Days vá. Tanto a arte quanto o roteiro impressionam, pois se escondem sob uma aparência singeleza uma eloquência que apenas os gênios são capazes de fazer.

