
A história todo mundo conhece: no início de 1984, um editor da DC Comics trouxe um desconhecido roteirista inglês para assumir as rédeas da revista do Monstro do Pântano, dando a ele ampla liberdade criativa para ditar os rumos do personagem. O editor era Len Wein e o roteirista era Alan Moore. O resto foi história.
Considero a contratação de Moore como a fagulha que desencadeou a criação do selo Vertigo nove anos depois. Desde então, ganhou força a ideia de criar quadrinhos direcionados para um leitor mais maduro. Ao contrário de Camelot 3000, lançado em 1982, Monstro do Pântano em uma revista de banca e, portanto, mais sujeita a regulação do antigo código de conduta dos quadrinhos norte-americanos. De fato, o Comic Code Authority limitava muito a criatividade dos artistas. Vendo o potencial do talento que tinha em mãos, a DC logo se livrou de suas amarras.
A chegada de Moore na DC também foi o marco inicial da invasão britânica nos quadrinhos norte-americanos. Depois dele, vieram Neil Gaiman, Grant Morrison, Jamie Delano e Peter Milligan, que formaram a espinha dorsal daquilo que se transformou na Vertigo anos depois.
Neil Gaiman e Dave McKean (que também é inglês) debutaram com Orquídea Negra no final 1988. A minissérie foi uma espécie de ensaio para a dupla antes de assumir a revitalização de Sandman, um personagem então obscuro dentro da DC Comics. Grant Morrison estreou na editora com Homem-Animal (1988); Jamie Delano, com Hellblazer (1988); e Peter Milligan, com Shade – O Homem Mutável (1990). Juntos, estes autores criaram, bem no meio da tradicional e carola DC, um bastião de originalidade, com tramas arrojadas de horror, fantasia e ficção-científica.
Mas a invasão britânica não ocorreria se não fosse os esforços de uma jovem e proeminente editora chamada Karen Berger. Era uma época em que não havia muitas mulheres trabalhando no meio dos quadrinhos. Profissionais como Jenette Kahn, Louise Simonson e Laurie Sutton já estavam na ativa, mas essa ainda era uma indústria dominada por homens.
Felizmente, Berger conseguiu se sobressair nos quadros da DC. A carreira dela por lá começou como assistente do editor Paul Levitz. Nessa época, ela trabalhava em títulos secundários como Casa dos Mistérios, Legião dos Super-Heróis e Ametista. Seu interesse, porém, não estava nas revistas de super-heróis.
Quando ela finalmente assumiu o papel de editora principal, Alan Moore já estava fazendo a sua mágica em Mostro do Pântano. Ela substituiu Len Wein na editoria da revista a partir da edição 25 e, desde então, ela se dedicou não só a levar o personagem para caminhos inéditos, como também a recrutar mais artistas do outro lado do Atlântico a fim de encontrar o frescor e ousadia semelhantes às histórias do mago inglês.
O resultado disso foi a formação de uma espécie de dream team britânico dentro da DC que compunha uma linha de títulos composta por seis séries regulares que pavimentaram o caminho para a criação do selo Vertigo. Foi o que afirmou a própria Karen Berger em certa oportunidade:
“Todos os títulos que acabaram se tornando a Vertigo – porque o selo não começou oficialmente até 1993 – tinham alguma base na realidade. Todas as séries principais começaram entre 1986 a 1988. Monstro do Pântano foi o primeiro livro pré-Vertigo em que trabalhei; depois Hellblazer, Homem-Animal, Sandman e depois Shade. O último dos seis títulos principais da Vertigo foi Patrulha do Destino. Eu não estava editando ele, mas decidi incluí-lo na linha porque Grant Morrison estava trabalhando nele e sua sensibilidade era muito parecida com as outras séries que editava”¹.
Essa busca por talentos britânicos era constante. Depois dessa leva inicial, Berger trouxe também Garth Ennis (Hellblazer), Warren Ellis (Transmetropolitan) e Mark Millar (Monstro do Pântano). Além do talento inegável, todo eles tinham em comum o fato de serem praticamente desconhecidos nos EUA e terem depois se tornado estrelas.
Essa ânsia constante de subverter os padrões vigentes na indústria é o que moveu Berger durante seu período na DC, que perdurou até o final de 2012. Ela continua editando quadrinhos, agora na Dark Horse, onde toca um selo próprio desde 2017, o Berger Books. Artistas como G. Willow Wilson, Ann Nocenti, David Aja, Anthony Bourdain, entre outros, já trabalharam com a editora na nova casa.
O que não mudou durante todo esse tempo foi o seu apuro artístico e sua visão ímpar do mercado editorial, que sempre extraíram o melhor do talento colocado à sua disposição. Sua contribuição, bem como de todos aqueles que integraram a invasão britânica, construíram a reputação da Vertigo como sinônimo de histórias de qualidade.

