
Tão certo quanto as resoluções de ano novo é a existência de uma intimidadora pilha de leitura.
Acredito que o leitor encontra-se ou alguma vez já se encontrou na situação de estar assombrado por uma longa lista de leituras pendentes. Como se não fosse suficiente a quantidade de obras compradas e não lidas, o ritmo de lançamentos das editoras é implacável, assim como os compromissos diários que nos roubam tempo de leitura.
Por isso acredito que seja um fenômeno comum entre os leitores o acometimento de uma variante muito peculiar de FOMO (fear of missing out) ou JOMO (joy of missing out). Tratam-se de dois tipos de comportamentos, tipicamente modernos, frutos do ininterrupto bombardeio de informações ao qual somos submetidos diariamente.
O acrônimo FOMO, que pode ser traduzido como “medo de ficar por fora”, refere-se ao comportamento de muitas pessoas que, diante da excessiva quantidade de informações disponíveis, temem perder alguma informação que consideram de suma importância.
O leitor de quadrinhos conhece muito bem essa sensação. A quantidade de obras de qualidade lançadas diariamente pelas editoras superam (e muito) o orçamento e o tempo de leitura que tenho disponível. É impossível acompanhar o ritmo. Qual devo comprar? Qual devo ler? Será que estou perdendo aquela leitura que vai mudar a minha visão de mundo?
FOMO é um fenômeno típico da cultura do consumo, amplificada pelas redes sociais, que nos assalta a todo momento com uma abundância de conteúdos e materiais tentadores. Por serem praticamente infinitas as possibilidades de escolhas, é um fato irrefutável que todos nós estamos perdendo algo, o tempo todo, simplesmente em virtude das restrições de tempo e espaço, e de termos apenas uma vida finita.
Para mim, ano todo é tempo de metas de leituras renovadas. E todo final de ano fico impressionado o quão longe fiquei de cumpri-las. Com medo de não conseguir ler tudo o que está na minha pilha de leitura, acabo superestimando o tempo que tenho livre. Isso mesmo separando um tempo extra para eventuais lançamentos “imperdíveis”.
Cansado dessa rotina, a partir desse ano passei a ser adepto do JOMO, ou, em tradução livre, da “alegria em ficar por fora”. Muitas pessoas passaram a se conscientizar dos malefícios que o excesso de opções pode causar, como ansiedade e depressão. Por isso, aqueles com o comportamento JOMO tendem a ser mais seletivos em relação ao conteúdo que consomem.
Infelizmente, o fã de gibizinho sofre com um importante fator complicador para realizar este detox: as baixas tiragens das publicações. Esperar alguns meses para adquirir determinado lançamento pode significar que você nunca mais o encontre. Isso estimula um outro comportamento que leva a pilha de leitura às alturas: na dúvida, compre.
O que me leva diretamente a um outro problema: espaço. Mesmo estando longe de ser um grande colecionador, não tenho mais onde guardar livros em minha casa. O entregador da Amazon é persona non grata em minha casa pela minha esposa. Ou seja, seja de forma espontânea ou não, o meu único caminho é ser ainda mais seletivo em minhas compras e abraçar o JOMO com mais convicção do que nunca.

