
É isso mesmo. Stan Lee e Moebius já trabalharam juntos com um dos personagens mais queridos da Casa das Ideias, resultando numa graphic novel lendária, com uma das melhores da história. Depois de ser publicada pela Abril no longínquo ano de 1989, a história inexplicavelmente ficou por décadas sem publicação no Brasil. Apenas em 2014 a Panini deu ao quadrinho o tratamento que ele merece, em uma edição caprichada em capa dura.
Porém, eu tive contato com a obra apenas com a versão da Abril, que a lançou dentro da sua antológica coletânea Graphic-Novel, coleção que juntou diversas obras renomadas nos quadrinhos, em que se presava pela qualidade editorial diferenciada e pelo bom gosto dos títulos. Além de Moebius e Stan Lee, nessa série foram reunidos profissionais do calibre de Will Eisner, Frank Miller, Alan Moore e Mike W. Barr. Agora atentaremos exclusivamente a Parábola, nome dado a essa história criada pela minha equipe criativa dos sonhos.
A ideia da parceria partiu do próprio Moebius durante um encontro com Stan Lee, assim como a escolha do Surfista Prateado como personagem principal. Ele incorpora uma veia mais filosófica em suas aventuras, dado que é um desafio para ele compreender a natureza humana, tão complexa e contraditória. Essas informações (além de outros detalhes sobre a produção do álbum) estão todas no prefácio escrito por Stan Lee, bem como no posfácio de Moebius.
De modo a explorar a genialidade de Moebius, Stan Lee criou uma aventura diferenciada, mais reflexiva e adulta, antagonizada por Galactus, um dos vilões mais tradicionais da Marvel e umbilicalmente ligado às origens do Surfista. A origem clássica do herói revela que ele era o arauto de Galactus, O Devorador de Mundos até este se voltar contra a Terra. Comovido com o espírito guerreiro do Quarteto Fantástico que não abandonou a luta, apesar dela já estar perdida, o Surfista se voltou contra o seu mestre e o expulsou do planeta.
Mas os humanos pouco se sensibilizaram. O Surfista começa Parábola caído na marginalidade e amargurado com a inconstância da natureza humana, que é acentuada com a chegada de Galactus. O caos logo se instala e as pessoas se desesperam. Se aproveitando dessa fragilidade, um líder religioso coloca Galactus como seu Deus e ele como o único mensageiro.
O interessante nessa história é conferir a maneira como Stan Lee lida com o fanatismo religioso e como a sua radicalização é perniciosa para a sociedade. Em momentos de fraqueza, os homens logo procuram um redentor, alguém que possa lhes liderar e proteger do desconhecido. Vozes dissonantes da maioria tendem a ser reprimidas e tudo que possa questionar a fonte de poder, deve ser extirpado. Em Parábola, essas questões são postas no contexto da religião. Mas não é difícil fazer um paralelo com a sociedade e como em períodos de exceção em geral.
Stan Lee privilegiou abordar mais os conflitos filosóficos e morais nascidos com a chegada com Galactus do que precisamente retratar a batalha frontal entre ele e o Surfista. Moebius no posfácio presente na edição da Abril confirma a intenção: “Tenho certeza de que algumas pessoas prefeririam mais ação, mas eu, particularmente, acho mais interessante ver a revista em quadrinhos sob um ponto de vista filosófico“. Esse é o grande diferencial da obra de Stan Lee e Moebius: sua história transcende o gênero de super-heróis e aproxima o leitor.
Lançado originalmente em dois volumes, Surfista Prateado ganhou o Eisner de Melhor Série Limitada em 1989, repetindo o feito de Watchmen no ano anterior.

Resenha originalmente publicada no finado blog Dimensão Nona Arte em 17 de março de 2013.
